Superman nos cinemas sempre foi um assunto polêmico, desde seu primeiro filme em 1978, que, para muitos, é considerado o melhor filme de super-heróis, até O Homem de Aço, filme que desconstruiu o personagem de modo a ser o precursor de uma série de adaptações de “versões do mal” do personagem.
Por outro lado, é ainda mais polêmico que a Warner Bros. não tenha conseguido saber o que fazer com o personagem após o fatídico filme da Liga da Justiça. Sem novos filmes solos, o personagem se limitou a participações que vão de um vislumbre da silhueta em Pacificador a garoto de recados da Amanda Waller, passando pela cena pós-créditos de Shazam!, que mostra o personagem chegando à escola como amigo de Freddy, mais uma vez sem exibir o rosto do personagem – e, curiosamente, essa foi a versão mais próxima do personagem dentro do extinto DCEU.
Voltando a 2025 e ao filme de James Gunn, é preciso dizer que Superman é mais que um filme. É um sopro de criatividade em meio a uma crise de ideias pela qual o segmento atravessa, e justo no projeto mais audacioso do recém-criado DC Studios. Afinal, a recepção negativa ao filme por parte da crítica e do público poderia sepultar os planos do DCU, nos relegando a décadas atrás, quando víamos um filme aqui ou ali do Batman, a aposta segura da Warner.
Não há como negar que a junção Gunn e Superman empolgou desde o seu anúncio. Se o homem foi capaz de nos fazer chorar com um guaxinim feito por computação gráfica, que potencial teria o maior herói de todos em suas mãos? E Gunn não decepciona, mesmo segurando a mão para fazer o arroz com feijão básico, a fim de reconquistar o público que há anos espera por um Superman mais fiel aos quadrinhos.
Sem contar novamente a origem do personagem nos quadrinhos, Gunn já posiciona o personagem no meio da ação, impedindo a Borávia de invadir e realizar um banho de sangue no país vizinho Jarhanpur – uma ação que traz consequências para a reputação do personagem. Em uma realidade tomada por conflitos sem fim, proliferação de fake news e líderes globais sem coragem de fazer o que é certo, é inegável a coragem de Gunn em abordar esses temas e trazer o personagem para o meio desses conflitos, em uma comparação direta ao que vivemos atualmente.
Assim como visto nos trailers, o trio Clark/Superman, Lois e Lex é o ponto alto do filme de 2 horas.
Se o Superman de David Corenswet não foge de fazer aquilo que acha correto, muito se deve à doçura e ao otimismo de um Clark Kent que resgata a fé inabalável que o personagem sempre teve na humanidade – seja nos quadrinhos, nas animações ou em filmes não tão recentes. E, ao contrário do que parte da internet gosta de atribuir à “cultura woke”, são essas qualidades do personagem que sempre o diferenciaram, a ponto de ser considerado o maior herói de todos e a base da trindade da DC.
E esse é o maior acerto desse Superman: ao optar por não ser a representação do ideal americano e, sim, a representação da bondade nas pessoas, o filme dá a chance de David Corenswet entregar uma atuação sincera, emotiva e que irá conquistar os fãs de Christopher Reeve, Tyler Hoechlin e até mesmo Henry Cavill – por que não?
E Lois Lane (Rachel Brosnahan) está mais afiada do que nunca! Sua personagem não é apenas o par romântico do herói, mas a força que o motiva a refletir sobre suas ações. Sai a donzela em perigo que tira toda a atenção do herói e entra a jornalista inteligente e independente que aprendemos a admirar.
Se a dinâmica Clark e Lois foi bem apresentada desde os primeiros vislumbres, ainda pairava alguma dúvida sobre o Lex Luthor de Nicholas Hoult. E ainda bem! Foi surpreendente acompanhar a atuação do ator, que traz um Lex visceralmente invejoso, representando com maestria toda a antítese do herói. É um Lex totalmente sem escrúpulos, que supera – e muito – interpretações anteriores, tão elogiadas como as de Gene Hackman e Michael Rosenbaum. E aqui não falo em tom depreciativo, de maneira alguma; é apenas para dar noção do tamanho da ameaça que esse Lex representa e representará no futuro do DCU.
Com relação aos personagens coadjuvantes, a “Gangue da Justiça” é um excelente complemento ao longa, com maior destaque para o Senhor Incrível (Mr. Terrific), de Edi Gathegi – um personagem que se impõe de maneira a justificar o nome que ostenta –, enquanto Guy Gardner (Nathan Fillion) e Mulher-Gavião (Isabela Merced) não deixam a desejar quando estão em cena.
Se existe um pequeno detalhe que talvez não brilhe tanto, é o núcleo do Planeta Diário. Embora todos os rostos conhecidos estejam lá, alguns personagens estão apenas preenchendo espaço, sem uma função que realmente nos conecte à história. Com exceção ao trio Lois, Jimmy e Clark, os outros jornalistas ficam um pouco à margem, e isso, de certa forma, diminui um pouco o potencial daquele ambiente – que, nos quadrinhos, sempre foi um espelho tão rico e um contraponto ao universo dos super-heróis. Mas, sinceramente, isso é um detalhe perto da grandiosidade do todo.
Superman é uma verdadeira carta de amor ao personagem, jogando luz a temas e tempos sombrios. É impossível não sentir aquela nostalgia boa, aquela sensação de quando víamos os melhores episódios de animações como Liga da Justiça: Sem Limites. O filme oferece o perfeito equilíbrio entre a ação bem coreografada, a emoção que faz os olhos marejarem e a reflexão sobre se o que acabamos de assistir era “apenas” um filme de quadrinhos.
Ao fazer o básico, James Gunn não apenas inicia uma nova era para o Universo DC; ele o faz com uma confiança que nos inspira, uma sensibilidade que nos desarma e um propósito que nos faz acreditar novamente – não apenas que o homem pode voar, mas que pode ser bom. Se este é só o começo do DCU, mal podemos conter a ansiedade para ver o que vem por aí.
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