Dragon Ball é um daqueles fenômenos que não dá para explicar. Talvez, com exceção de Pokémon, não haja no mundo outro anime que tenha alcançado uma legião de fãs tão numerosa, que atravesse gerações e se mantenha verdadeiramente apaixonada pela obra. E Dragon Ball Daima prova isso para o bem e para o mal.
O último aceno de Goku em uma animação aconteceu em 1997, no término da criticada e amada saga GT. Desde então, foram quase duas décadas sem nenhum lançamento do anime. Para qualquer outra franquia, seria o limbo, o esquecimento, uma lenda que seria passada de pais para filhos como um fenômeno da cultura pop, que chegava a quase todos os lares muito antes de a internet permitir o acesso a qualquer filme ou episódio em poucos cliques.
E não existiam esperanças de que Akira Toriyama retornasse ao mundo que criou para contar novas histórias. Afinal, a história de Goku e seus amigos estava de fato encerrada. Canônico ou não, o final de Dragon Ball GT é um dos encerramentos mais bonitos e emocionantes de qualquer franquia, capaz de emocionar ainda hoje, após mais de 20 anos de seu lançamento.
Eis que, em 2012, fomos surpreendidos com o anúncio de Dragon Ball Z: A Batalha dos Deuses. O filme, lançado em 2013, recebeu críticas mistas, mas foi um sucesso comercial que reacendeu o desejo dos fãs por novas aventuras de Dragon Ball. Desde então, a franquia não parou mais, com o lançamento de novos filmes, jogos e mangás, culminando em Dragon Ball Super, a saga que fez com que os fãs e até mesmo prefeituras ao redor do mundo espalhassem telões pelas cidades para que a população pudesse acompanhar aquele que talvez tenha sido o ápice da franquia: Goku e Freeza lutando lado a lado contra Jiren.
E talvez esse final apoteótico, que levou milhares de pessoas às ruas para assistir a um episódio de anime, tenha sido o motivo da decepção de parte do público com Dragon Ball Daima. Veja bem, Akira Toriyama era um cara genial, mas nunca foi sua intenção transformar a franquia num “MCU dos animes”. Há rumores de que o próprio “Super Saiyajin 3” tenha sido utilizado poucas vezes porque era trabalhoso desenhá-lo e, depois de uma saga tão frenética quanto Super, é normal que ele quisesse dar uma pisada no freio.
Dragon Ball Daima
Quando Dragon Ball Daima foi anunciado, parte dos fãs esperava que a saga desse continuidade a Super, adaptando as sagas de Moro e/ou Granola. Mas Toriyama quebrou todas as expectativas, e quando as primeiras informações e imagens de Dragon Ball Daima surgiram, os fãs logo associaram o novo anime à saga GT, onde Goku volta a ser criança e precisa embarcar numa viagem interplanetária para voltar a ser adulto e, no caminho, sair no soco com alguns vilões.
Porém, a própria premissa de Dragon Ball Daima já foi suficiente para parte dos “fãs” condenarem o anime antes mesmo de sua estreia.
Veja, o problema não está na obra em si, e sim na expectativa criada pelos fãs antes mesmo de assisti-la. Criar expectativas de que todo lançamento da franquia tenha que se encaixar numa linha do tempo de histórias já estabelecidas é um convite para a própria ilusão, é mostrar total desconhecimento sobre Toriyama e seu apego apenas a contar histórias divertidas.
Quantos filmes de Dragon Ball Z foram lançados sem a necessidade de se ligar canonicamente a outras sagas da franquia? A relação com o cânone nunca teve importância para nos divertirmos com a obra, e tampouco fez alguma diferença para Akira. Então, qual a obrigação que Dragon Ball Daima tem de se encaixar canonicamente a algo? Basta saber que se passa entre o fim da saga Boo e antes da saga Super, e está tudo bem.
Pegando outras franquias como exemplo: os fãs não conseguiam se divertir com os filmes do Homem-Aranha, dos X-Men, antes de eles fazerem parte do MCU? É como se parte dos fãs exigisse a “marvelização” de Dragon Ball, onde cada nova produção precisa estar interligada a outros filmes e sagas. E é curioso traçar esse paralelo, já que é do universo Marvel que podemos extrair uma frase que cabe muito bem nesta situação. Como bem disse MJ Watson: “Quando você não espera nada, você não se decepciona”.
Desligar-se das teorias mirabolantes de redes sociais e poder apenas sentar para assistir ao meu anime favorito na hora do almoço, como fazia há mais de 20 anos, fez com que Daima entregasse aquilo que eu esperava: diversão, humor, novas transformações e uma nova abertura com uma música que te arrebata desde os primeiros acordes, tal qual em Dragon Ball, Dragon Ball Z, Super e até Dragon Ball GT, por que não?
Dragon Ball Daima é cheio de furos? ABSOLUTAMENTE. Mas nada disso importa quando se trata da carta de amor de Akira Toriyama aos fãs que acompanham sua obra há 40 anos. No final, conexões e linhas do tempo são meros detalhes quando nos damos conta de que Daima foi a despedida de criador e criatura. As aventuras de Goku e seus amigos irão continuar, não tenha dúvidas disso, mas, a partir de agora, sempre surgirá a pergunta: o que mestre Akira faria?
Ah, e se você quer entender o que é esse sentimento por Dragon Ball, talvez o vídeo de lançamento de Dragon Ball Z Kakarot para o Playstation possa te explicar.
Arigatô, sensei Akira Toriyama! E boa sorte, Toyotarō, você vai precisar.
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