Confesso que tenho tido pouca paciência para assistir a novas séries, embora acompanhar o hype nas redes sociais de produções como Ruptura e Silo me desperte alguma curiosidade em vê-las. Com isso, vou assistindo a trailers e salvando séries na “minha lista”. Foi o caso de After Life, série escrita, dirigida e protagonizada por Ricky Gervais, a mente por trás da versão original de The Office.
Na série, Ricky Gervais interpreta Tony, um jornalista de uma pequena cidade inglesa que perde sua esposa, Lisa, para o câncer. Sem filhos e com o pai internado em uma casa de cuidados devido ao Alzheimer, Tony se vê consumido pela dor e com fortes tendências suicidas. Sem coragem para dar fim à própria vida, ele acaba descontando seu sofrimento nas outras pessoas, sem se importar com as consequências.
O trailer realmente me vendeu uma série de comédia sarcástica nos moldes de $h*! My Dad Says, série estrelada por William Shatner e que aparentemente apenas eu assisti. Mas bastou o término do primeiro episódio para eu perceber que havia muito sarcasmo para pouca comédia. E não estou reclamando. O que vi ao longo de três temporadas (totalizando 18 episódios) foi suficiente para me fazer repensar a forma como cada pessoa encara o luto.
O grande mérito do roteiro de Ricky Gervais é a humanização do luto em um turbilhão de emoções, onde a raiva, a tristeza e o sentimento de impotência fazem de Tony um personagem complexo e cheio de nuances com as quais nos identificamos. Em um momento, estamos às lágrimas, com pena do personagem; no seguinte, o vemos como um babaca egoísta que ignora o fato de que o luto é um sentimento inevitável para todos.
A primeira temporada de After Life foca na maneira como Tony encara a dor como uma forma de honrar a memória da esposa, sem perceber que, ao fazer isso, está afastando as pessoas que ainda estão ali por ele, inclusive Matt (Tom Basden), seu chefe e cunhado. Já as duas temporadas seguintes mostram a evolução do personagem, cercada por recaídas e diálogos tão naturais e complexos em sua simplicidade que evidenciam toda a sua dor. Aos poucos, Tony desiste da ideia do suicídio e decide voltar a ter uma vida normal — dentro do possível.
Mas, para uma série que se vende como comédia, é necessário que o humor apareça em algum momento. After Life faz isso de maneira ácida, sarcástica e, por vezes, politicamente incorreta. Entretanto, até mesmo as piadas de cunho mais provocativo, uma característica marcante de Gervais, servem para evidenciar a raiva que Tony sente do mundo e de si mesmo, por estar vivo enquanto a pessoa que mais amou já não está. É comum que momentos emocionantes sejam quebrados por uma piada aqui ou ali, sem que o diálogo se transforme em uma comédia pastelão digna de filmes recentes.
O verdadeiro coração de After Life
Para mim, os melhores momentos da série se dividem em duas partes: os diálogos entre Tony e Anne (Penelope Wilton), uma viúva que ele encontra no cemitério conversando com o túmulo do marido enquanto visita a sepultura de Lisa; e as cenas em que Tony visita seu pai, interpretado por David Bradley (Harry Potter).
A sabedoria de vida de Anne e sua capacidade de compreender a dor de Tony proporcionam diálogos filosóficos cheios de ternura sobre o sentido da vida e da morte. É como se Tony enxergasse em Anne a única pessoa do mundo que realmente entende sua dor, enquanto ela o ajuda a perceber que todos, em algum momento, precisam enfrentar suas próprias perdas. Os momentos entre os dois são tão naturais e cheios de afeto que seria possível assistir a um episódio inteiro apenas com as reflexões emocionais dos personagens.
Já as cenas entre Tony e seu pai são profundamente tocantes. O homem que poderia ser seu apoio emocional tornou-se alguém incapaz de reconhecê-lo, mesmo sendo visitado diariamente. Esses momentos escancaram a impotência do ser humano diante de problemas que fogem de seu controle.
Falar mais sobre After Life e seus excelentes (e excêntricos) personagens secundários seria entrar na zona de spoilers (mesmo para uma série encerrada em 2022) e privar o espectador da experiência de sentir emoções que apenas a arte é capaz de despertar.
A série se consagra como uma das produções mais autênticas e emocionantes da Netflix e, possivelmente, da carreira de Gervais. Com uma abordagem sincera, crua, sarcástica e, ao mesmo tempo, bem-humorada sobre a dor, After Life faz rir, chorar e, por que não, encontrar um novo significado para a vida em meio ao turbilhão de problemas que todos enfrentamos diariamente.
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