É de conhecimento geral que, nas HQs, os trajes de heróis e vilões chegam a ser toscos. Cheios de cor, com escolhas estéticas surpreendentes, para dizer o mínimo. Exemplos disso são os uniformes de heróis como do Gavião Arqueiro – com as cores azul e roxo predominando e a máscara com um H – ou de vilões como do Electro – o traje verde e amarelo com máscara que mais parece uma estrela.
Fato é: na virada da década de 90 para os anos 2000, com filmes como Blade (1998), X-Men (2000) e Batman Begins (2005), os uniformes de super-heróis começaram a deixar de ser chamativos, coloridos e fantasiosos e começaram a ir por um caminho mais “realista” e pé no chão. Poucos filmes dessa época chegam a escapar disso, com a trilogia do Homem-Aranha de Tobey Maguire e o filme Superman: O Retorno sendo exemplos.
E isso evoluiria de “realismo” para o efeito conhecido atualmente como “marvelização” dos uniformes, onde é adicionado linhas aleatórias e detalhes de relevo exagerados aos trajes dos nossos queridos heróis e vilões quando chegam às telonas.
Os Uniformes Realistas
Quem aqui não ama os X-Men? Conhecidos por personagens famosos como o Ciclope, Jean Grey, Wolverine, que usavam nas HQs uniformes com predominância do azul e do amarelo.

No ano 2000, o primeiro filme dos X-Men era lançado. E os uniformes da equipe? Trajes pretos de couro, com pouca diferença do traje de um personagem para o outro – com um momento do primeiro filme fazendo piada sobre o “colant amarelo” de Logan nos quadrinhos. O único filme da franquia que se salva com relação aos trajes é X-Men: Primeira Classe, que brinca um pouco com os uniformes amarelos.
Em 2005, Batman Begins chega ao mundo, trazendo um Cruzado Encapuzado que usava uma armadura tática, um Batmóvel “tanque” e vilões com designs que fogem do fantasioso. Personagens como Duas-Caras e Bane, que já haviam sido adaptados anteriormente, perderam toda sua “magia”.
Porém, os trajes realistas e a ideia de ser mais “pé no chão” não afetou o sucesso das obras, com a franquia X-Men (2000-2019) tendo 10 filmes, com apenas 4 deles tendo uma aprovação menor que 60% no Rotten Tomatoes. A trilogia do Cavaleiro das Trevas foi um sucesso, com os três filmes tendo uma aprovação maior que 80%.
O Começo da Era Sombria
A partir de 2010, as coisas tomaram um rumo sombrio para os trajes de heróis, especialmente nos filmes da DC.
Em 2012 foi lançado O Espetacular Homem-Aranha, a estreia de Andrew Garfield no papel do personagem. O filme, ainda afetado pelos efeitos da década anterior e, talvez, querendo se distanciar um pouco do tom mais colorido do Aranha de Tobey Maguire, e também do expansivo e levemente brincalhão MCU, decidiu levar o personagem por uma rota mais séria.

O Homem-Aranha de Andrew Garfield não é uma adaptação ruim – acredito que chega até mesmo a ser a melhor adaptação do herói – porém, o tom sério e o traje mais escuro do personagem removem grande parte da essência do herói brincalhão e cheio de graça que enfrenta vilões enquanto solta diversas piadas.
Infelizmente a continuação, O Espetacular Homem-Aranha 2: Ameaça de Electro, ao trazer um Andrew Garfield com a personalidade e o traje perfeitos do Amigão da Vizinhança, pecou em agradar a crítica e o público, trazendo vilões com motivações pífias e adaptações… Diferenciadas. A má recepção do segundo filme fez com que Andrew Garfield fosse descartado como Homem-Aranha e que sua trajetória acabasse ali.
Ainda assim, o maior dano aos trajes de heróis foi causado pela DC e sua tentativa de alcançar a Marvel na ideia de um universo compartilhado. Assim, chegamos à era do Universo Estendido DC, o DCEU.
A Era Sombria
O ano era 2013. Henry Cavill chegava nas telonas em: O Homem de Aço. A adaptação de Zack Snyder trouxe um novo olhar ao personagem, quase como… Divino. Um Super-Homem imponente, acima de todos e um tanto quanto melancólico. Seu uniforme? Um traje de batalha kryptoniano com tons escuros de azul e vermelho.
Isso abriu uma porta para personagens que, honestamente, parecem mais versões distorcidas de suas referências originais do que de fato uma adaptação. Tanto no quesito dos uniformes, quanto na própria interpretação dos heróis.
Homem de Aço foi o pontapé para o DCEU, um projeto da DC para trazer seus personagens para as telonas e fazer com que trabalhassem juntos. E rápido. A falta de planejamento do DCEU levou com que sua construção fosse feita de forma apressada, com personagens centrais sendo apresentados logo no segundo filme do universo: Batman vs. Superman: A Origem da Justiça.
Batman vs. Superman pulou as apresentações e trouxe ao público Batman e Mulher-Maravilha, de maneira corrida e desleixada. E o assunto de hoje: sombria.
O Batman que os fãs receberam era um personagem rancoroso que ignorava sua principal regra, com um uniforme cinza escuro com detalhes que o deixavam similar ao traje de Kal-El, deixando os visuais com pouca personalidade.
A Mulher-Maravilha falhava em ser a representante da verdade que marca a personagem nas HQs, com uma armadura com tons escuros de vermelho e azul, que quando somado à iluminação sombria da obra, faziam o traje parecer mais um marrom do que o brilhoso vermelho, azul e dourado que a heroína normalmente é vista utilizando.
Em seu primeiro filme solo, de 2017, o uniforme da Mulher-Maravilha possui mais cor, o que destaca a personagem e dá uma sensação de “luz no fim do túnel” em sua história, que se passa durante a Primeira Guerra Mundial.

O quinto filme do universo, Liga da Justiça (a versão de Joss Whedon), trouxe mais personagens para o elenco dos heróis: Aquaman, Flash e Ciborgue são apresentados no filme que junta a equipe contra a ameaça apresentada por Lobo da Estepe, subordinado de Darkseid.
O projeto, que iniciou nas mãos de Zack Snyder mas sofreu diversas alterações por Joss Whedon quando o primeiro precisou sair, trazia mais cor para os uniformes dos personagens, mas mantinha o design de armaduras ou pequenos detalhes nos uniformes, o que causava o efeito de semelhança entre todas as roupas e deixava os trajes da equipe sem personalidade distinta entre si.
A Marvelização dos Heróis
Enquanto a DC apostava no DCEU – que sofria não apenas com a pressa na apresentação dos personagens, mas também com filmes em tons diferentes que se conectavam de maneira preguiçosa -, a Marvel crescia cada vez mais com o MCU.
E conforme evoluía, sua lista de personagens presentes nesse universo cinematográfico e seus diferenciados trajes de heróis evoluía junto. Do lançamento de Batman vs. Superman até Liga da Justiça, a Marvel foi responsável por trazer personagens como o Homem-Formiga, Pantera Negra, Doutor Estranho e um novo Homem-Aranha para sua saga de filmes interconectados.

A Marvel não sofria do mesmo problema que a DC com uniformes sombrios e sem personalidade. Pelo contrário, por muito tempo a Marvel se destacava por trajes coloridos, cada um com seu estilo. O que acontecia na Marvel era outra questão: excesso de detalhes. Um padrão que começou a surgir nos trajes dos heróis da Marvel foi a adição de linhas (devo dizer, aleatórias) e relevos pelo uniforme dos personagens.
Isso, somado ao uso excessivo de nanotecnologia pós-Ultimato (Thor: Amor e Trovão, Homem-Formiga e a Vespa: Quantumania, Capitão América: Admirável Novo Mundo) acaba gerando um certo desgaste para alguns fãs, criando um sentimento de mesmice.
A Cor da Esperança
Contudo, porém, todavia… Há sempre esperança.
Durante o desenrolar do DCEU, diversos diretores tentaram trazer trajes mais fiéis aos uniformes apresentados em quadrinhos e animações, fugindo do tom sombrio proposto por Zack Snyder para o universo. Os filmes do Aquaman e do Shazam são ótimos exemplos de filmes que buscam trazer aquilo que os filmes da DC (e da Marvel) deveriam ser desde o início: filmes de quadrinhos.
Embora esses filmes tenham sido tentativas de mudar o tom do universo (que já estava condenado por volta de 2020), o início da era de uniformes bobos com cor e personagens carismáticos com personalidade começou em 2021 com O Esquadrão Suicida, do diretor James Gunn.
Em 2021, tanto a DC quanto a Marvel, tiveram uma onda de personagens com uniformes – e junto disso, personalidades – mais coloridos, mais estilosos e cada vez mais fiéis ao material original. Personagens como Feiticeira Escarlate, Capitão América de Sam Wilson, até mesmo o Duende Verde, receberam trajes que se assemelhavam às suas versões quadrinescas.

Enquanto isso, na DC, personagens como Pacificador, Homem Bolinha, Rick Flag e Senhor Destino apareciam nas telonas com uniformes praticamente cuspidos das HQs para a vida real. Isso abriu as portas para que cada vez mais heróis emergissem com mais e mais fidelidade, como o Besouro Azul e os Guardiões da Galáxia – que nos dois primeiros filmes não usavam uniforme – em 2023, e também Wolverine e Gambit em 2024.
Agora, em 2025, é possível ver cada vez mais a absorção dessa ideia de trajes de heróis quadrinescos nos filmes do gênero. O Sentinela em Thunderbolts*, o Superman em seu novo filme do James Gunn, o Quarteto Fantástico agora em Primeiros Passos, e o Homem-Aranha em seu futuro filme Homem-Aranha: Um Novo Dia. A “marvelização” ainda está lá com suas diversas linhas e diferentes níveis de relevo? Sim. Mas a cor, a fidelidade e a quadrinização está cada vez maior também.

Porque é isso que um filme de super-herói – ou melhor, um filme de quadrinhos – tem que apresentar para o público: personagens carismáticos, uniformes bonitos e fidedignos, e 2 horas de diversão com gostinho de “quero mais”.
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