Hoje tomamos uma decisão que, embora simbólica para o mercado, é essencial para nossa consciência: a partir deste momento, o Coletivo Nerd deixará de divulgar, comentar ou cobrir qualquer conteúdo relacionado à franquia Harry Potter e outras obras de J.K. Rowling.
Sabemos que somos um veículo independente, com alcance limitado quando comparado a grandes portais e conglomerados de mídia. Sabemos que essa decisão não causará impacto financeiro direto sobre a autora ou os estúdios envolvidos em suas produções. Mas também sabemos que, como comunicadores e como pessoas, temos o dever de nos posicionar contra qualquer tipo de violência, preconceito e discurso que contribua para a marginalização de grupos vulneráveis.
E é exatamente isso que J.K. Rowling tem feito de maneira sórdida e desleal.
Nos últimos anos, a autora tem usado sua fama, sua fortuna e sua influência para alimentar um discurso transfóbico, com consequências graves para a comunidade trans em todo o mundo. Suas palavras não foram mal-entendidos ou “opiniões impopulares”. Foram ataques sistemáticos disfarçados de preocupação, que ecoam ideologias perigosas e dão respaldo a políticas reais de exclusão, violência e retrocesso.
Quando criticada por suas declarações, a autora não só reafirmou seu ponto de vista, como passou a sustentar um discurso sistemático contra o reconhecimento de pessoas trans em políticas públicas, direitos legais e espaços sociais.
Mas para a autora isso não basta, ainda há espaço para o deboche. Em uma postagem repugnante nesta quarta (16), Rowling postou uma foto fumando charuto e tomando um drink com a legenda “Adoro quando um plano dá certo”. A publicação faz alusão a uma recente decisão da Suprema Corte do Reino Unido, que determinou que a definição legal de mulher deve se basear no sexo biológico.
Desde a implementação da Lei de Igualdade Britânica, em 2010, mulheres trans que obtivessem o Certificado de Reconhecimento de Gênero após sua transição tinham o direito de serem reconhecidas legalmente como mulheres, com acesso às mesmas proteções oferecidas a mulheres cisgênero. No entanto, com a nova interpretação judicial, esse reconhecimento poderá ser limitado, o que pode restringir o acesso de mulheres trans a espaços e serviços destinados exclusivamente a mulheres.
Além disso, Rowling tem financiado organizações que promovem discursos anti-trans e se alinhado a grupos ultraconservadores como a LGB Alliance, que se apresenta como defensora de direitos LGB, mas exclui e combate abertamente pessoas trans.
Essas atitudes, além de perigosas por si só, alimentam uma onda crescente de ódio e desinformação. E são particularmente contraditórias se comparadas com os valores que muitos leitores aprenderam em suas obras. Harry Potter ensinava sobre empatia, acolhimento, amizade e coragem. Falava sobre lutar contra o autoritarismo, contra o preconceito, contra a tirania do sangue-puro, contra aqueles que acreditam que apenas os “de linhagem pura” são dignos de reconhecimento e respeito.
E para nós, isso é inaceitável.

Reconhecemos o impacto de Harry Potter na formação de uma geração. Muitos de nós crescemos com esses livros e filmes, nos refugiamos na magia de Hogwarts, nos sentimos pertencentes a um lugar onde a diferença era celebrada. Mas não podemos ignorar que a própria criadora desse universo traiu os valores que sua obra aparentava defender. Ser fã não significa ser cúmplice. E é possível amar uma história e, ao mesmo tempo, recusar-se a promover quem a criou quando essa pessoa se volta contra os direitos humanos.
Essa decisão não parte de uma cultura de cancelamento. Parte de uma cultura de cuidado. Cuidado com as pessoas trans que nos leem. Com os jovens LGBTQIA+ que buscam no Coletivo Nerd e em nossos eventos um espaço seguro para existir. Com os fãs que esperam de nós mais do que notícias: esperam coerência, empatia e responsabilidade.
Existem milhares de criadores incríveis, histórias mágicas e universos fantásticos que não exigem que a gente sacrifique nossos princípios para apreciá-los. Vamos continuar falando sobre fantasia, ficção, magia e heroísmo — mas não com base em quem escolheu usar seu poder para oprimir.
Que nossa posição inspire outros veículos, mesmo que pequenos, a fazerem o mesmo. Porque no fim das contas, não é sobre o tamanho do nosso alcance e sim sobre o tamanho da nossa consciência.
Quer saber mais sobre artigos? Inscreva-se em nosso canal no YouTube.









Deixe um comentário