Quando se pensa em American Pie, é provável que a primeira lembrança esteja relacionada à série de filmes besteirol estrelada por Jason Biggs, Seann William Scott e Alyson Hannigan, cujo primeiro filme fora lançado em 1999 arrecadando mais de US$ 235 milhões nas bilheterias.
Para muitos, os filmes não passam de comédias adolescente repleta de piadas sexuais e situações constrangedoras. No entanto, ao revisitar a quadrilogia original (American Pie, 1999; American Pie 2 – A segunda vez é ainda melhor, 2001; American Pie 3 – O Casamento, 2003 e American Reunion, 2012) percebe-se que os filmes oferecem mais do piadas sexistas e cenas de nudez gratuitas. É perfeitamente seguro afirmar que os filmes apresentam uma jornada de amadurecimento, a desconstrução de uma masculinidade tóxica e o crescimento pessoal de seus personagens, tudo isso embalado por músicas que capturaram magistralmente o espírito dos adolescentes dos anos 2000.
American Pie: Sexo, bebidas e vergonha alheia
Vergonha alheia talvez seja o sentimento que define a franquia American Pie, especialmente nos primeiros filmes.
A busca incansável do quarteto formado por Jim (Jason Biggs), Oz (Chris Klein), Finch (Eddie Kaye Thomas) e Kevin (Thomas Ian Nicholas) para terem relações sexuais é permeada por uma cultura de masculinidade tóxica, onde a objetificação feminina e o consentimento não passam de meras reflexões tardias.
A cena onde Jim filma Nadia sem a sua permissão é um exemplo da falta de consentimento. E há o agravante de que todos os amigos, incluindo o “progressista” Finch, o encorajam a fazê-lo. O filme, e muitos besteiróis da época fizeram uma geração de homens acreditar que o consentimento nada mais é do que um obstáculo a ser superado para conseguir alguns minutos de prazer.
Se esta é uma situação problemática para os padrões atuais, há 25, 30 anos não era bem assim, além de ser um reflexo da cultura da época, embora ainda hoje existam até mesmo grupo de mulheres que defendam a total submissão feminina perante os desejos de seus escolhidos.
E os filmes não se esquivavam de mostrar o lado mais sombrio e imaturo do ambiente masculino adolescente. E tudo isso se personifica em Stifler, com seu comportamento abertamente sexista e homofóbico, representando os piores aspectos dessa cultura. No entanto, é precisamente a partir desse ponto de partida que a jornada de crescimento dos personagens se torna tão significativa.
A (i)maturidade masculina
O que torna a quadrilogia American Pie especial é a sua capacidade de mostrar a evolução de seus personagens, incluindo Stifler. O quinteto de amigos não permanecem como os adolescentes imaturos do primeiro filme. Longe disso, eles aprendem com seus erros, enfrentam as consequências de suas ações e, embora a passos de tartaruga, se tornam pessoas mais íntegras. Ver os filmes décadas após seu lançamento é refletir sobre a cultura da época e entender que mesmo filmes como American Pie possam abordar crescimento e superação para aprender a tocar a vida.
E Jim é o representante máximo desse amadurecimento e crescimento pessoal. E a virada de chave para Jim se dá no final do primeiro filme, ao perceber que foi “usado” por Michelle (Alyson Hannigan), ele se dá conta que também pode ser objetificado, passando a ver as mulheres como indivíduos com seus próprios desejos.
Essa evolução é sentida ao longo dos demais filmes. No quarto filme, American Reunion, encontramos os personagens na casa dos 30 e poucos anos lidando com as complexidades da vida adulta, como filhos, casamento, carreira e decepções amorosas.
A exceção continua sendo Stifler. O outrora garanhão do ensino médio tenta parecer aos olhos dos demais como o mesmo cara irresponsável e imaturo de 20 anos atrás, o que leva o personagem a assumir uma figura deslocada e patética, evidenciando que aquele comportamento tolerado anos atrás não é mais apropriado para uma pessoa adulta. É quando a última peça se encaixa e o personagem, enfim confrontado com seu próprio vazio, percebe que a persona que sustentava não só o afastava dos amigos como o impedia de crescer. Ao abrir mão dos preconceitos e da máscara de eterno adolescente pegador, ele descobre que a verdadeira farsa era a imagem que insistia em performar.
É quando sua trajetória alcança a dos demais e com ela, a jornada de amadurecimento de todo o grupo chega ao fim.
American Pie e a trilha sonora que marcou uma geração
A trilha sonora de American Pie é um capítulo à parte na cultura pop do final dos anos 90 e início dos anos 2000. Dominada pelo pop punk de bandas como Blink-182, Sum 41 e Green Day, a música captura perfeitamente a energia caótica, a angústia e a rebeldia de uma geração que buscava e ainda busca encontrar seu lugar no mundo em meio a mudanças tecnológicas, comportamentais e sociais, sempre à sombra de pais que, na mesma idade, já pareciam ter a vida mais encaminhada.
As músicas não eram apenas um pano de fundo para criar a atmosfera das cenas, muitas vezes se encaixam perfeitamente com os personagens e as situações. “Mutt” do Blink-182, com sua energia caótica e letras sobre inadequação, é a cara de Jim e seus amigos no primeiro filme.
Já, “Sway” de Bic Runga, uma baladinha romântica, se torna o tema do relacionamento de Jim e Michelle, representando a transição da luxúria e rebeldia adolescente para um amor mais maduro e genuíno. A música é tão icônica que reaparece em American Reunion, trazendo uma onda de nostalgia e reforçando a ideia de que, em meio à rebeldia e descoberta da sexualidade em uma faixa etária tão complicada, tudo o que parte daqueles adolescentes queriam era encontrar sua cara metade.
American Pie é no fundo muito mais do que a soma de suas piadas duvidosas. É uma crônica humana e sincera sobre o amadurecimento de uma geração que ainda busca seu lugar num mundo ainda mais caótico que há 20, 30 anos atrás.
Ao revisitar esses filmes, somos convidados a rir das situações absurdas, saber separar o que é inadequado e o que é imaturidade, mas também a refletir sobre nossa própria jornada de crescimento. E, talvez, a reconhecer que, por trás de muita torta e feromônios, há um coração surpreendentemente grande e sincero.
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